Escrevi o texto abaixo, publicado no Jornal "O Estado de São Paulo" em 25/09/1977. Numa madrugada, o navio brasileiro Frotasantos seguia viagem rumo ao Japão, fez o resgate de 97 vietnamitas que estavam em um pequeno barco pesqueiro à deriva no Mar da China fugindo das consequências da guerra do Vietnã.
À bordo deste navio, um jovem Oficial da Marinha Mercante, seguia rumo ao seu sonho de conhecer o Japão.
Este resgate e a convivência de dez dias com estas pessoas fragilizadas pelos horrores da guerra e pelas incertezas da operação de fuga, marcaram a minha vida. Prossegui minha viagem ao Japão, retornando no mesmo navio ao Brasil. Aos 25 anos fui mais uma vez para o Japão em intercâmbio técnico-cientifico e aos 32 anos fui pela terceira vez, agora casado e com esposa, onde vivemos por quase 4 anos, e tivemos nossa primeira filha que nasceu no Hospital Católico de Tóquio na véspera do Natal de 1989.
Eis o texto:
“A noite caia calma e tudo transcorria de acordo com a rotina estabelecida a bordo do navio durante as travessias. Os membros da tripulação de serviço nesta hora (18h30) tiravam seus "quartos" – divisão de serviços a bordo onde o tripulante trabalha 4 horas e descansa 8 horas – e os demais descansavam ou assistiam a um programa de TV antigo gravado em vídeo cassete. Um problema de máquinas obrigou-nos a “boiar” e os reparos durariam cerca de duas horas. A esta hora eu estava preparando-me para dormir, pois entraria em serviço à meia-noite. Uma chuva fina começava a cair lá fora, depois ficou um pouco mais intensa e o breu logo tomou conta da noite. O mar já não estava tão calmo, formações de ondas faziam com que o navio jogasse ainda mais.
Acordei bastante assustado e sobressaltado com barulhos anormais lá fora. Eram 20h10 e percebi que o navio continuava boiando, então levantei-me e fui até a borda do convés, onde todos falavam sobre náufragos que pediam socorro. Uma luz piscava ao longe em feixes descompassados, aproximando-se vagarosamente da popa do nosso navio. Gritos e gemidos começaram a serem ouvidos e aos poucos, com a iluminação projetada pelos holofotes, uma pequena embarcação surge sob nossos olhares descortinando-nos um quadro impressionante.
Homens, mulheres, crianças e velhos, todos maltrapilhos, molhados até os ossos, dentro do pequeno barco, cujo convés não podia ser visualizado, pois toda a sua extensão estava tomada por gente em pé, deitada, estirada. Lançados os cabos de amarração e mantido o barco junto ao navio, um tripulante desceu até o pé da escada de portaló do navio que fora arriada e pediu, em inglês, que o líder do grupo subisse a bordo para falar com o comandante do navio. Foi então que soubemos que eram todos fugitivos do Vietnã.
O líder, um homem de uns 50 anos, responsável pelo planejamento da fuga juntamente com oito companheiros que financiaram a operação, pediu ajuda ao comandante, pois estavam sem alimentos, sem água e sem combustível, e a 300 milhas náuticas de qualquer localidade em terra firme. Eles estavam tentando seguir para as Filipinas, mas se perderam. O nosso navio era o terceiro a quem eles pediam socorro, pois os dois primeiros, apesar de passarem a menos de uma milha de distância do barco, não pararam, ignorando o sinal de pedido de socorro. Os refugiados não conseguiram identificar a nacionalidade desses navios.
Na impossibilidade de trazê-los para bordo utilizando a escala de portaló por causa do forte balanço do mar, foram colocadas escadas de parapeito e redes com cabos trançados em forma de quadrados de aproximadamente trinta centímetros cada lado. Três tripulantes desceram a bordo da pequena embarcação e auxiliaram a subida do grupo composto de 97 pessoas. Algumas estavam tão fracas que não tinham forças sequer para manter-se em pé – estavam há cinco dias em alto mar e entre eles haviam três mulheres grávidas e algumas pessoas doentes. Após todos subiram a bordo do navio, o barco foi deixado à deriva, juntamente com duas metralhadoras e um fuzil, armas que carregavam para garantirem a fuga.
Após todos serem alimentados com biscoitos, comida leve, chá e água, e alguns serem atendidos na enfermaria, começamos a fazer os contatos com eles em inglês e francês. Soubemos, então, que eram, em sua maioria, residentes de Saigon e que haviam deixado o Vietnã durante uma madrugada da localidade de Ver Lau. A fuga tinha sido planejada durante dois meses, em absoluto segredo, e todos se deslocaram até o local combinado para o embarque em pequenos grupos para não despertarem suspeitas dos vietcongs.
Inicialmente eles pretendiam seguir para a Malásia ou Cingapura, países mais fáceis de serem alcançados, mas o barco sofreu um defeito no motor e ficou à deriva, deslocando-se para o lado das ilhas Borneo e Filipinas. Como estavam ficando sem provisões e algumas pessoas já apresentavam sinais de doença, fizeram um pacto entre eles de que, caso começassem a morrer, afundariam o barco e todos morreriam juntos.
O grupo é bastante homogêneo, formado, em sua maioria, por famílias que jamais aceitaram o regime comunista e que, por isso, eram vítimas de saques, prisões e mortes indiscriminadas. Muitas dessas famílias estavam incompletas, apenas com a mãe e os filhos, porque o pai tinha sido executado ou preso.
Tentamos não fazer muitas perguntas sobre o Vietnã e sobre dias que antecederam a fuga, pois isso os emocionava muito.
Todos nós ficamos impressionados com a coragem e a decisão do grupo, especialmente com a decisão de afundarem o barco caso eles não resistissem por mais tempo em alto mar. Quando todos já estavam recuperados, reuniram-se sob uma imagem de Cristo impressa na antecapa de uma Bíblia que lhe oferecemos, rezaram e choraram, agradecendo por terem sido salvos. A maioria é budista, mas havia muitos católicos entre eles.
Durante a viagem até Hong Kong e os dez dias de quarentena que ficamos com eles, falamos muito do Brasil, sobre o Pelé, futebol, carnaval e café. Ao chegarem a Hong Kong, muitas crianças vietnamitas já falavam estas e outras palavrinhas simples em português e chamavam alguns tripulantes pelo nome. Chamavam-me de “gutty”, o nome com que me apresentei a eles. Antes do desembarque de todos em Hong Kong alguns afirmaram que pretendiam, se o governo brasileiro permitisse, emigrar para o Brasil, onde acreditavam, poderiam ter uma vida com liberdade e trabalho em um país pacífico!
Até a próxima.