domingo, 16 de janeiro de 2011

O Líder e a Tragédia

Hoje é domingo, acordo mais tarde e ainda meio sonolento, pois ontem fomos assistir ao mais novo desenho da Disney em 3D, Enrolados, por sinal muito bom, e aproveitamos para dar uma esticada para molhar a palavra e beliscar algo no Baumgarten, enquanto comentávamos as qualidades do filme e a revolução da imagem 3D.

Consegui dormir bem esta noite, o que nem sempre acontece em razão da rinite alérgica, e após rezar e tomar o café da manhã abro o portal de notícias.  E lá está estampada a manchete: “NÚMERO DE MORTOS NA REGIÃO SERRANA DO RJ JÁ PASSA DE 600”. Clico e leio o texto e retorno à página principal onde a manchete parece encolhida, em letras minúsculas, no meio de tantos anúncios de comércio eletrônico, manchetes esportivas e televisivas, enfim, sem nenhum efeito especial que possa indicar o tamanho da tragédia e nos ajudar a sair da letargia coletiva com relação a elas.

Será real que já entramos na segunda década do século 21? Será real que já estamos vivendo o crepúsculo da Era da Informação com a substituição dos PCs pelos tablets? Será real que já estamos  no limiar da “Era da Energia e do Clima” como descreve bem o Tom Friedman no excelente “Quente, Plano e Lotado”?

Porque em nosso país ainda não temos um processo de pensar estrategicamente em longo prazo, como os que existem nos países adiantados?  Quando iniciaremos o pensar sistêmico e integrado sobre o Brasil de 2020? 2030? 2040? 2050? Quantas tragédias futuras este processo poderá evitar?

O tempo é um conceito relativo, portanto vivenciado de maneira diferente por cada indivíduo. Mas será que estamos revivendo a tragédia grega? Este acontecimento que se repete todos os anos no verão brasileiro, quase sempre nas mesmas cidades, poderia ter sido magistralmente escrito por Sófocles, Eurípedes ou Ésquilo, onde o herói trágico - as vítimas - luta contra um fator transcendental - as chuvas e os desmoronamentos previsíveis das encostas e as cheias dos rios avolumando-se em seus leitos naturais tomados de lixo e de construções em área de risco -  e sempre acaba com um final trágico e sofrendo todas as conseqüências por tentar controlar ou mudar o poderoso destino?

Será mesmo destino? Mas, e Deus, não é brasileiro? Deus é muito, muito brasileiro, na verdade Deus é mais de 192 milhões de vezes brasileiro, segundo o último censo do IBGE e  mais, muito muito mais. Nós brasileiros é que, mesmo depois de 510 anos medidos no tempo dos homens, ainda estamos distantes da planta original que Deus nos oferece diuturnamente e que vem impressa no sentimento, cérebro, coração e DNA, na capacidade de sentir, crescer e mudar a si próprio e o mundo em sua volta.

Segundo Ermance Dufaux, “o sentimento é a maior conquista evolutiva do espírito.” Do espírito humano, portanto para nós, brasileiros, espíritos humanos em evolução, já passa do tempo de deflagrarmos o processo educativo que nos conduzirá aos elevados sentimentos associados à alta consciência e ao conhecimento que pode ser aplicado para o bem comum da nossa sociedade cada vez mais conectada e em processo de transformação.

A transformação de um país inicia-se com a transformação interior de cada um dos seus nacionais baseada em valores novos. Só quando estes novos valores são interiorizados e atingem o campo dos sentimentos, é que ocorre a verdadeira mudança, iniciando-se um longo processo transformador e regenerador.

A transformação não é um evento, é uma longa jornada!

E é durante a jornada da transformação, em seus acontecimentos mais dramáticos e muitas vezes inevitáveis, que os líderes são necessários. Nossos líderes encontram-se em suas posições privilegiadas, mas não interiorizam os novos valores que os façam verdadeiramente servir. Servir ao próximo, não servir-se do.  Não faltam exemplos de líderes que serviram e ensinaram a servir. Jesus, o maior deles. Temos Sathya Sai Baba, Gandhi, Luther King, Madre Teresa, Irmã Dulce, D. Zilda Arns, Betinho, D. Helder Câmara e muitos outros.

É fundamental medirmos o tamanho da tragédia e declararmos nossa definitiva inaceitação e insatisfação com as mortes que ocorreram. São 600 pessoas. 600 corações. 600 mentes e 600 sonhos. Uma só morte nestas circunstâncias já deveria ser motivo para alerta e para se colocar em cena um plano de ações preventivas para as situações similares.  Dez mortes já seria uma tragédia!

Mais de 600 mortes, não sei que palavra da língua portuguesa pode ser aplicada. Desastre? Catástrofe? Caos? Calamidade? Leviandade? Ou Indiferença?  Quantas vidas humanas foram perdidas! 

Catástrofes naturais vêm provocando tragédias em vários países e devemos nos preparar, pois a tendência é aumentar globalmente. São fenômenos naturais que estão acima do poder humano. Em outra oportunidade discutiremos esta afirmação que pode não ser totalmente verdadeira.   Em uma análise simples, fica fácil distinguir uma sociedade desenvolvida quando se contabiliza a “quantidade de mortos” como conseqüência de desastres naturais.  Doze mortos nas enchentes na Austrália, uns poucos mortos nas nevascas nos Estados Unidos contrastando com as estatísticas nefastas das tragédias no  Haiti, no Brasil ou na Indonésia. Que Brasil queremos construir?

O Brasil sonha em ser uma sociedade moderna, conectada, e se ensaia passos tímidos para uma verdadeira transformação. Será que os atores sendo escalados estudaram o texto justo? Grandes eventos mundiais serão realizados no país em 2014 e em 2016. Toda vez que marcamos uma data para um evento ela chega, e chega rápido. Não está passando da hora de se decretar “a morte da indiferença, da ignorância, da ganância e do egoísmo” através da Educação e da gestão honesta e competente dos recursos públicos e privados necessários para a parte física e mais visível da transformação, que é a infra estrutura?

Qualquer cidadão ou cidadã minimamente incluído e devidamente educado, e principalmente, os Líderes da nação em suas diversas posições – midiáticas, comunitárias, da academia, do poder legislativo municipais estaduais e federal, líderes em posições no poder executivo, no judiciário, nas ONGs, nas Empresas, nas Associações de Classe e nas outras organizações da sociedade civil, como a OAB e a ABI à frente de todos, deveriam saber que os níveis de riscos em todas as categorias – ambientais, sociais, econômicos, geopolíticos e tecnológicos – vêm aumentando globalmente.

De acordo com o “Global Risk Report” do “World Economic Forum”, existe uma defasagem entre a taxa de evolução de riscos no mundo e a capacidade de governos, empresas e organizações não-governamentais de lidar com os mesmos. Os custos dos riscos não gerenciados de forma adequada, e que se transformam em crises, são extremamente elevados em termos de vidas humanas e perdas materiais.

A capacidade dos governos, empresas e ONGs de confrontar riscos antes que se transformem em crises, depende fundamentalmente de preparação e de planejamento.

Bravatas, improvisações, pseudoplanos e “liberação de verba emergencial”, são soluções simplistas e improvisadas para problemas complexos, assim como a negação dos riscos tendem a agravar exponencialmente o impacto das crises transformando-as em verdadeiras tragédias, catástrofes, caos.

No penúltimo réveillon a tragédia foi em Angra. Em abril do ano passado foi no Morro do Bumba em  Niterói. Neste janeiro nas cidades da Região Serrana. Onde e quando será a próxima?  E os líderes que têm o poder da transformação sistêmica, estão aprendendo as lições destes acontecimentos e as aplicarão na prevenção das tragédias vindouras?  

Toda esta incapacidade, esta falta de preparo, de ações preventivas, de inteligência e de planejamento a serviço da segurança da sociedade está como o pano de fundo desta manchete neste belo domingo de sol. Estas mortes são o retrato da nossa realidade!  Vamos nos manter letárgicos e indiferentes ou vamos agir para mudar este estado das coisas começando com nossa inaceitação e insatisfação?

Eu nasci em Minas Gerais e vivi durante dezoito anos no Rio de Janeiro, o que equivale a mais de 1/3 da minha vida. Conheci minha esposa na praia, apresentada por um amigo de faculdade, no mesmo dia que nos conhecemos fomos ao bar Mistura Fina na Lagoa; seis anos depois nos casamos no Outeiro da Glória e recebemos nosso filho caçula na maternidade da Clínica Laranjeiras oito anos depois. Nossa filha mais velha já tinha chegado na véspera do natal de 1989 quando morávamos em Tóquio.  Já estive, impulsionado pela minha hiperatividade e por força do meu trabalho, dos projetos de consultoria e dos estudos, ou a lazer, em mais de 50 países, e não conheço cidade mais linda do que a do Rio de Janeiro, com suas belezas naturais e sua extensão tão acessível seja na região serrana, na região dos lagos ou na baía de Angra.

Não deveriam o homem, e a mulher, cuidarem com mais diligência dos recursos que a natureza lhes oferece para seu sustento, procriação e evolução?

Não basta mais dar ao povo pão, carnaval, Ronaldinho e BBB-11, esta excrescência inútil que induz nossa juventude à busca do dinheiro fácil, da negação dos valores morais, familiares e cristãos. Tudo por mais poder para a Globo e para o Bial preencher o seu ego maracanãnico, ele que é um grande jornalista e escritor. Sem citarmos o tremendo mico do Silvio de Abreu deixando a Clara livre no final da Passione. As leis do Gérson e a mais recente do Romário estão ainda tão impregnadas em todos?

Solidariedade e respeito à vida devem ser as lições de mais esta tragédia. Que estas 600 mortes sejam lembradas como a última tragédia (grega) da nossa atávica tragédia brasileira!

Até a próxima. 

3 comentários:

  1. Ah Geraldo, faço minhas suas palavras....Estou tão indignada que grito no Facebook todo dia sobre essa situação. Os desalojados de Santa Catarina estão ATË HOJE esperando a ajuda do governo. Os de Angra nem se fala. mas aqui é o País das Maravilhas, somos ótimos, emprestamos dinheiro ao FMI! veja só....mandamos ajuda ao Haiti, quando o Haiti é aqui! Permitimos que o governo gaste 1 bilhão de reais para reformar o Maracanã e não gaste a verba destinada à prevenção de desastres como esse. Permitimos que nos enganem todos os dias com patriotadas e bravatas e nos enchemos falsamente de um orgulho que está nesse momento aos pedaços, descendo o morro na enxurrada.
    Até quando vamos permitir isso? até quando vamos passivamente, bovinamente, nos deixar enganar? um país que não cuida de sua educação, não chega a lugar nenhum, portanto seu sonho de planejamento a longo prazo não se concretizará, enquanto tivermos governos personalistas e demagógicos. Querem o aplauso imediato e buscam o ego inflado neste momento, enquanto enchem os seus bolsos e o da patota com o nosso dinheiro suado.
    Estou como você indignada com tudo, mas estou mesmo indignada com o povo, que aceita as migalhas de um Bolsa-miséria em troca de votos. Panis et Circenses - o morro vinha abaixo enquanto o povo saudava Ronaldinho Gaúcho. Isso sim, é revoltante e demonstra que nós provavelmente MERECEMOS o que temos.

    Abraço, Celia

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  2. Ola Geraldo,
    Tudo que voce escreveu tem sido uma constante neste nosso Brasil,
    Infelizmente temos o problema do analfabetismo funcional que é crônico se multiplicando ano a ano.
    Enquanto isso, a Rede Globo usa estes fatos para faturar nas horários nobre, exibindo as feridas e as mazelas que temos sem colocar face a face os principais responsávei para buscar e implementar soluções, sem fazer a apologia da soliariedade.
    O brasileiro, tem a caracterítica de ser solidário nos momentos de desgraça, e enete momento podemos atestar que o pais inteiro se volta para a coleta de doações e voluntários, anônimos. dedicando horas e horas prara minorar e ajudar as vítimas.
    Entratano esta mesma solidariedade desaparece uando se precisa juntar forças para reverter esta passividade dos nosso politicos e falta de respeito que os memos tem com a coisa pública.
    A Célia focou bem fatos identicos de um passado recente( Angra Sta. Catarina) que se nào estão esquecidos, continuam sem as soluções que estão a serem aprsentadas.
    Só discordo da bolsa miséria, eu diria que a industria da bolsa para alguns safados que vilipendiam um obra que seria boa se fosse séria.
    Obrigado pelo seu eforço e estar dividindo suas idéias conosco
    Abs.
    Beccaro

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  3. Oi Geraldo
    Parabéns pela iniciativa !
    No meio de tantas noticias sobre as enchentes me peguei derramando algumas lágrimas por aquelas pessoas que se foram e por aqueias que ficaram no meio do caos....
    Muitas dessas pessoas perderam todos familiares e ainda encontram forças para seguir ajudando outros que estão na mesma situação...
    Com certeza o que vemos pela TV e Internet não é nem uma ínfima parte de viver a situação na real. Somos ' anestesiados ' pela telinha....
    Mas , isso nao impede de nos sentirmos indignados com a bandalheira politica que se instala nessas horas...
    Como voce bem disse, será que é tão dificil pensar...puxa ..aconteceu em 200x...2010, 2011 e se não fizermos nada os próximos anos continuará a mesma situação...
    Uma fagulha de esperança é que agora que o Brasil está entrando no circuito das grandes potencias (meio timidamente..é verdade), as pessoas criem vergonha e elejam pessoas que pensem no bem-comum e nao apenas no próprio bolso....
    abraços
    Thoni Scola

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