domingo, 20 de março de 2011

Obama e o insosso discurso do Rio

Muito simpático, porém um tanto quanto “insosso” o discurso que o presidente americano Barack Obama proferiu hoje à tarde no Theatro Municipal do Rio de Janeiro em sua primeira viagem ao Brasil, que acontece em um momento mágico do nosso país.

Momento mágico conquistado pelo desempenho do Brasil na crise de 2008-2009, pela descoberta do pré-sal e pela atenção que o país atrai pelo fato de sediar a próxima Copa do Mundo de Futebol em 2014 e as Olimpíadas de 2016.

Como excelente orador e homem sensível, pelos padrões dos presidentes americanos, iniciou seu discurso de maneira muito simpática falando em português, “alô Rio de Janeiro, alô Cidade Maravilhosa”. Na sequência citou o “Orfeu Negro” e o cantor Jorge BenJor. Além de elogios rasgados à Presidente Dilma Rousseff, à democracia e à economia brasileiras, ao final de seu pronunciamento, Obama também cita o escritor Paulo Coelho.

O presidente tece um paralelo entre a trajetória dos EUA e do Brasil como nações livres, abundantes em recursos naturais e terras natais de povos indígenas antiqüíssimos. Ambas as nações são descobertas pelos europeus e denominadas de “novo mundo”, colonizadas por pioneiros, tornam-se independentes com uma diferença de 46 anos, a favor dos americanos, que se viram livres dos ingleses em 1776 enquanto o Brasil só deu o “grito do Ipiranga” em 1822.

Comenta o fato de as duas nações terem recebido grandes quantidades de imigrantes que ajudaram na sua construção. Cita a escravidão, que foi flagelo comum nos dois países, mas novamente,  ponto para os EUA que libertaram seus escravos 25 anos antes que o Brasil: 1863 contra 1888.

Na sequência, o presidente enfatiza a importância da ampliação das fronteiras rumo ao Oeste. Ponto para os EUA.  O Brasil demorou a iniciar o processo de interiorização. Enquanto lá a corrida do ouro rumo ao Oeste ocorreu entre 1763 e 1848, ano em que foi descoberto ouro na Califórnia, aqui somente na década de 1950 começou a corrida para o Oeste quando JK enfrentou os lacerdistas e os retrógrados em sua difícil luta pela construção de Brasília.

Os Estados Unidos foram a 1ª. nação a reconhecer a independência do Brasil e a 1ª. a estabelecer um posto diplomático no Rio de Janeiro. Ponto para os EUA.   Um ponto para o Brasil aqui: o primeiro líder de um país a visitar os EUA foi  Dom Pedro II. Verdadeiramente nosso Imperador era um estadista de visão.

Disse o presidente: “na última década, o progresso feito pelo povo brasileiro inspirou o mundo”. Belo elogio.  O que precisamos é “inspirar” o Congresso dos EUA a derrubar as barreiras impostas contra os produtos brasileiros exportados para aquela nação.

Citou também que “empresas brasileiras e americanas assumiram o compromisso de aumentar o intercâmbio de estudantes entre nossas nações.” Diante do potencial existente, este intercâmbio ainda é muito tímido e se dá entre instituições "privadas" de ensino.  Onde está a democracia na educação?

O presidente Obama disse ainda “este não é mais o “país do futuro”, o futuro já chegou e está aqui agora.  É hora de tomar posse dele. Continua o presidente “somos parceiros iguais, unidos pelo espírito do interesse comum e do respeito mútuo, comprometidos para com o progresso que sei que podemos fazer juntos”.

“Podemos aumentar nossa prosperidade em comum. Sendo duas das maiores economias do mundo, trabalhamos lado a lado durante a crise financeira para restaurar o crescimento e confiança.”  

Ele também fala em trabalhar juntos pela segurança da energia e proteger nosso lindo planeta, defendendo uma economia mais verde, com a criação de fontes de energias limpas e renováveis. E os ditadores que os EUA ainda mantêm no Oriente Médio para garantir seu abastecimento de petróleo?

Sobre segurança, diz, “estamos trabalhando juntos para defender a segurança dos cidadãos e deter o narcotráfico que já destruiu vidas demais neste hemisfério e aumentar a segurança entre os dois hemisférios.”

Faz um afago ao continente africano, quando diz que ambos, EUA e Brasil, enriquecidos pela herança africana, devem trabalhar juntos com o aquele continente para ajudá-lo a se reerguer. Faz breve menção ao Oriente Médio, dizendo que quando os jovens insistem em que as correntes da História estão se movendo, a carga do passado pode ser apagada, mencionando Tunísia, Egito e Líbia.

Busca agradar Brasil e Japão dizendo que o Brasil é o lar da maior população japonesa fora do Japão, e que os EUA estão dando apoio ao povo japonês nesta hora de grande necessidade. Fala de encontrar força na diversidade, de justiça social e de inclusão social, que podem ser melhor conquistadas por meio da liberdade e que a democracia é a maior parceira do progresso humano, onde todos os cidadãos devem ser tratados com dignidade e respeito. “Todos queremos ser livres, queremos ser ouvidos, todos ansiamos por viver sem medo ou discriminação”.

Ao final, retoma o senso de possibilidade que o elegeu “YES, WE CAN” e fala do otimismo que primeiro atraiu pioneiros ao “novo mundo”, e que isso une indelevelmente EUA e Brasil como parceiros nesse novo século 21.

Obama disse que vai voltar ao Brasil e ao Rio em 2016. Só não sabemos se voltará como Presidente ou como ex-Presidente convidado, pois enfrentará uma reeleição difícil no final de 2012. Com um discurso simpático, porém  “insosso”, Obama deixa escapar a oportunidade de materialização e lançamento das bases de integração dos dois hemisférios através de uma agenda mais clara e profunda  da parceria de iguais entre os dois gigantes das Américas:  EUA e BRASIL. Ponto para Michelle Obama e para as filhas Malia e Sasha que, sem a grande altivez esperada por parte do pai, passaram a roubar as cenas com os seus modelitos e simpatia.

Até a próxima.

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