domingo, 20 de março de 2011

A tenacidade do povo japonês

Nove dias após o terremoto e tsunami que atingiram o  nordeste do Japão em 11 de março, dois sobreviventes de 80 e 16 anos foram resgatados hoje com vida das ruínas de um dos povoados  devastados na província de Miyagi.  Este é um pequeno exemplo da tenacidade deste povo.

Tenacidade que vem da necessidade de sobrevivência em condições geo-climáticas adversas,  e da forte cultura xintoísta-budista-confucionista e de grandes exemplos deixados pelos seus ancestrais.

Vestígios de vida no arquipélago japonês remontam há mais de 100 mil anos, quando as atuais 6.852 ilhas vulcânicas e montanhosas ainda estavam coladas ao continente asiático. Mas foi por volta de 250 d.C. que cavaleiros vindos da Mongólia invadiram o arquipélago e tomaram seu controle, iniciando a dinastia Yamato que impera no país até hoje. 

No século VI, foi introduzida a escrita chinesa em ideogramas, o budismo e o confucionismo, e no ano 710 foi construída a cidade de Nara – uma réplica da cidade chinesa de Changan – que passou a ser a capital do Japão. Neste período, com o apoio do governo e do imperador Shomu, o budismo prosperou e a cultura chinesa difundiu-se e foi amplamente assimilada.

No Período Kamakura – entre os anos 1192 a 1333 - o Japão instituiu um regime militar conhecido por “xogunato” onde o imperador nomeava um xogum – ditador militar – para governar o país. Neste período, que marca o início do feudalismo japonês, o primeiro xogunato inaugurado por Minamoto Yoritomo, fixou sua sede na vila litorânea de Kamakura, e derrotou Kublai Kan - neto de Genghis Kan, rei da Mongólia que conquistou toda a China – quando este tentava invadir o território japonês. Além da luta dos bravos samurais em defesa das ilhas, o Japão foi beneficiado por poderosos furacões e tufões que se abaterem sobre os barcos mongóis, destruindo-os. Esses tufões ficaram conhecidos desde então como “kamikaze” ou “vento divino”.

Mas, uma das referências mais fortes e significativas para os japoneses, surgiu quando o guerreiro da província de Harima, chamado Shinmem Musashi No Kami Fujiwara No Geshin – popularmente conhecido como Miyamoto Musashi – dois anos antes de morrer em 1645 com 60 anos, isolou-se na caverna Reigando, na ilha de Kyushu, e compilou seus conhecimentos de uma vida nas artes da espada e da estratégia, na obra intitulada “Go Rin No Sho” ou “O Livro dos Cinco Anéis.”

Esta obra, que se inspirou na cultura guerreira japonesa, tornou-se uma das mais importantes sobre o combate pessoal e sobre estratégia, dividindo fama com o livro “A Arte da Guerra” escrito pelo general chinês Sun Tzu no século IV a.C.

Dividido em cinco livros: o da Terra, o da Água, o do Fogo, o do Vento e o do Vazio, esta obra descreve os princípios e valores que norteavam o “Caminho do guerreiro” ou “Caminho da estratégia”, como preferia chamar o autor. No livro da Terra ele trata da importância da estratégia militar e dos diversos caminhos possíveis na época – de acordo com as leis confucianas – os Caminhos do lavrador, do mercador, do artesão e o do guerreiro.

No livro da Água, explica os métodos para alcançar a vitória e a movimentação do corpo como a fluidez da água. No livro do Fogo, ele descreve técnicas de combate. No livro do Vento, faz comparações entre seus ensinamentos e os de outras escolas japonesas de artes marciais, e no último livro, o do Vazio, Miyamoto Musashi aconselha o guerreiro a não se afastar do Caminho verdadeiro, ou seja, manter o espírito tranqüilo e aprimorado com o coração e a mente, aperfeiçoando visão e percepção.

Segundo ele, a sabedoria e os princípios devem guiar o caminho que se escolhe trilhar, e a iluminação chegará quando o espírito estiver vazio, que é onde não existe nada. Conhecendo as coisas que existem, pode-se conhecer as que não existem. Esse é o vazio.

Entre 1935 e 1939, esta obra foi publicada em pequenos capítulos diários no maior jornal japonês, o Asahi Shimbum. Depois de 1013 capítulos, foi transformado em livro e vendeu mais de 120 milhões de exemplares no Japão, quase a totalidade da sua população atual de 128 milhões de habitantes.

Com tanta história e tanta inspiração, este povo, que conseguiu reerguer-se da devastação da 2ª. grande guerra mundial, ressurgindo a partir da década de 70 como uma das maiores potências do globo, certamente, com a mesma tenacidade, irá reerguer-se novamente desta tragédia provocada pelo terremoto seguido de tsunami e explosão na usina nuclear de Fukushima 1, que já consumiu mais de 20.000 vítimas entre mortos e desaparecidos.

Banzai Japão!  Dez mil anos de vida ao seu bravo povo!  Até a próxima.

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